Já aqui falei sobejamente do Verão e da praia, e até da síndrome do Verão antecipado, contudo após algumas idas à praia (em tempo de Verão de facto) vejo-me forçada a explanar mais umas linhas sobre o tema.
Ao fim de algum tempo numa praia perto de Lisboa e já anteriormente alertada por uma amiga sobre o que iria acontecer, constato que no nosso país por muita praia, extensões intermináveis de areal e oceano a perder de vista, não há praia suficientemente grande para nós.
Para os portugueses a praia deveria vir em tamanhos como a roupa, aliás, vou mais longe ainda, deveria haver um tamanho único (prática também comum nos tempos que correm, a qual tantos problemas me tem trazido, visto que sendo eu e os demais portugueses únicos, vemo-nos à justa, literalmente, para caber num tamanho standard)
Ora o tamanho único, padronizado seria o XL, as praias deveriam apenas vir em tamanhos grandes visto que por mais espaço que haja, por mais vasto que seja o espaço da praia, os veraneantes vêm sempre, sem excepção (cientificamente comprovada após variados dias seguidos na praia) aglomerar-se o mais próximo possível dos seus companheiros banhistas. E com eles vêm as bolas (que infalivelmente vêm também elas ter connosco até às nossas toalhas talvez por solidariedade com os seus donos), as raquetes, os telemóveis a tocar música a decibéis muito acima dos recomendados, as pratas das sandes ou a latas de refrigerantes.
Aliás, a alimentação não poderia, uma vez mais, ficar de fora neste ritual de estio: comer, levar o dito “farnel” é tão (ou mais) importante que trazer esse objecto de parca importância que se chama protector solar. Para quê evitar o melanoma quando se pode ir bebendo cervejas, comer pernas de frango ou os últimos rissóis do prato? (geralmente de plástico, mais leve para se enterrar na areia).
O elogio da congestão é, a meu ver, e paralelamente ao sentimento de solidão que nos atrai a estarmos colados aos outros banhistas, o verdadeiro desporto de verão, sendo que quando nele pensamos, olhamos para a expressão “situação de aperto” com outros olhos. Pelo sim pelo não, quando for à praia, faça como nas passadeiras, pare, escute e olhe…bem para onde se vai deitar.
Vanessa Limpo
In "Expresso Sem Mais", edição de 2 de Agosto de 2008
domingo, 3 de agosto de 2008
domingo, 20 de julho de 2008
I beg your pardon?
Veio de mansinho, assim como quem não quer a coisa mas parece que está cá para ficar (pelo menos até ao próximo solstício) e começam já a fazer-se sentir os seus efeitos.
Claro está que falo do Verão. Esta silly season, como vulgarmente é designada na imprensa, traz, de facto, consigo situações e/ou personagens bem silly.
Como explicar, por exemplo, a tendência portuguesa para de repente tratar os estrangeiros de forma diferente nos diferentes estabelecimentos públicos e/ ou comerciais? Bastam as palavras mágicas (geralmente proferidas em inglês mas desde que não sejam em português, o “truque” funciona plenamente) para todo um admirável tratamento novo se dar: se for num café ou restaurante o cliente é atendido, muitas vezes, em primeiro lugar, sentado num ponto privilegiado, etc. Mas o FSI (fenómeno da simpatia imediata) dá-se também em lojas, bares, ou até na rua. Raramente temos paciência para dar, por exemplo, indicações geográficas aos nossos conterrâneos, contudo, ouve-se um qualquer balbuciar na língua de Shakespeare ou na de Goethe e faz-se magia: somos solícitos, indicamos (se o nosso inglês não estiver no seu auge de inteligibilidade então recorremos até à mímica e só não vamos com o turista aflito porque temos o 28 para apanhar).
Que somos um povo hospitaleiro por natureza ninguém duvida e essa é uma característica que não devemos perder visto que nos torna singulares entre tantos outros, o que não deveríamos perder é a nossa solicitude para com os nossos conterrâneos, os primeiros sorrisos e afabilidade deveriam ser entre portugueses e, concomitantemente extensíveis aos demais povos, etnias e culturas.
Não sendo patriota exacerbada acredito, no entanto, numa velha máxima:a de que a educação começa em “casa”.
Vanessa Limpo
in "Expresso Sem Mais", edição de dia 19 de Julho de 2008
Claro está que falo do Verão. Esta silly season, como vulgarmente é designada na imprensa, traz, de facto, consigo situações e/ou personagens bem silly.
Como explicar, por exemplo, a tendência portuguesa para de repente tratar os estrangeiros de forma diferente nos diferentes estabelecimentos públicos e/ ou comerciais? Bastam as palavras mágicas (geralmente proferidas em inglês mas desde que não sejam em português, o “truque” funciona plenamente) para todo um admirável tratamento novo se dar: se for num café ou restaurante o cliente é atendido, muitas vezes, em primeiro lugar, sentado num ponto privilegiado, etc. Mas o FSI (fenómeno da simpatia imediata) dá-se também em lojas, bares, ou até na rua. Raramente temos paciência para dar, por exemplo, indicações geográficas aos nossos conterrâneos, contudo, ouve-se um qualquer balbuciar na língua de Shakespeare ou na de Goethe e faz-se magia: somos solícitos, indicamos (se o nosso inglês não estiver no seu auge de inteligibilidade então recorremos até à mímica e só não vamos com o turista aflito porque temos o 28 para apanhar).
Que somos um povo hospitaleiro por natureza ninguém duvida e essa é uma característica que não devemos perder visto que nos torna singulares entre tantos outros, o que não deveríamos perder é a nossa solicitude para com os nossos conterrâneos, os primeiros sorrisos e afabilidade deveriam ser entre portugueses e, concomitantemente extensíveis aos demais povos, etnias e culturas.
Não sendo patriota exacerbada acredito, no entanto, numa velha máxima:a de que a educação começa em “casa”.
Vanessa Limpo
in "Expresso Sem Mais", edição de dia 19 de Julho de 2008
quinta-feira, 10 de julho de 2008
Anúncio de emprego...
Anúncio que vi hoje no site net-empregos.com, aquando das minhas pesquisas diárias por quiçá um emprego decente e honesto..qualquer semelhança com tal situação é pura coincidência...ele há coisas...co'a breca!
"Cota de 55 anos pretende contactar jovem mulher com formação em ingles.Terá de ensinar o velhinho a falar minimamente a lingua inglesa.Ofereço remuneração compativel e uma estadia em qualquer parte do mundo que fale ingles.Assunto sério.Não aceito candidatas que me tentem assediar.Enviar candidatura a tonimiguel@sapo.pt "
"Cota de 55 anos pretende contactar jovem mulher com formação em ingles.Terá de ensinar o velhinho a falar minimamente a lingua inglesa.Ofereço remuneração compativel e uma estadia em qualquer parte do mundo que fale ingles.Assunto sério.Não aceito candidatas que me tentem assediar.Enviar candidatura a tonimiguel@sapo.pt "
domingo, 6 de julho de 2008
Nails are (all) of us...
Nails are (all) of us…
Hoje em dia fala-se muito dos avanços da tecnologia e da sua influência sobre os jovens e crianças. Adventos como a Internet, os jogos de computador e todos os demais gadgets como as consolas, playstations) etc, são considerados “papões” modernos que sugam dos cérebros das nossas crianças toda a possibilidade de livre raciocínio, criatividade ou imaginação.
Em grande parte concordo que a exposição (e uso) abusivos destes meios podem, de facto, constituir um entrave ao estímulo de capacidades como as já referidas à actividade a que, até agora, as crianças são especialistas: a de brincar.
As crianças hoje não brincam, simulam, não inventam, recriam, e sobretudo quando lhes é pedido para inventarem uma brincadeira, retraem-se. Não quero aqui tomar este facto como geral, há sempre excepções mas enquanto membro activo na comunidade pedagógica, cada vez mais considero que brincar é urgente, brincar é preciso!
Outra coisa que é necessária é deixar as crianças serem-no. Já sei que este discurso está gasto, foi amplamente debatido, no entanto, continua a fazer sentido.
Quando vejo crianças com seis anos com unhas e cabelos pintados, usando acessórios de uma adolescente de 16 anos, penso que aquela criança deve estar um pouco baralhada e que vem com uma década de antecipação. Esta é a geração da antecipação (passe a rima não propositada): nos adolescentes antecipa-se a idade adulta; aqui poderão dizer-me que já no “nosso” tempo era assim, que todos os jovens querem ser “grandes”. Correcto, a diferença é que queríamos mas não podíamos porque os nossos pais não nos deixavam (honra lhes seja feita). Nas crianças antecipa-se a adolescência e isto ainda me parece mais grave: ter um telemóvel aos seis anos, pintar as unhas ou o cabelo quando ainda a dentição conhece as primeiras baixas não me parece coerente. Estamos noutros tempos, é verdade, contudo e pelo o que testemunho, uma criança prefere sempre um chupa-chupa a um vale Fnac, e se lhe derem uma sala vazia durante duas horas, essa sala ao fim desse tempo não será a mesma, porque foi invadida de traquinice e brincadeira.
È preciso deixar que as bolas, elásticos e bonecas inundem de infância as nossas crianças. Deixemo-las brincar com mãos sujas de riso e de tanta apanhada. Só assim formaremos adultos saudáveis. Como diria João dos Santos “O segredo do homem é a sua infância”.
Vanessa Limpo.
Hoje em dia fala-se muito dos avanços da tecnologia e da sua influência sobre os jovens e crianças. Adventos como a Internet, os jogos de computador e todos os demais gadgets como as consolas, playstations) etc, são considerados “papões” modernos que sugam dos cérebros das nossas crianças toda a possibilidade de livre raciocínio, criatividade ou imaginação.
Em grande parte concordo que a exposição (e uso) abusivos destes meios podem, de facto, constituir um entrave ao estímulo de capacidades como as já referidas à actividade a que, até agora, as crianças são especialistas: a de brincar.
As crianças hoje não brincam, simulam, não inventam, recriam, e sobretudo quando lhes é pedido para inventarem uma brincadeira, retraem-se. Não quero aqui tomar este facto como geral, há sempre excepções mas enquanto membro activo na comunidade pedagógica, cada vez mais considero que brincar é urgente, brincar é preciso!
Outra coisa que é necessária é deixar as crianças serem-no. Já sei que este discurso está gasto, foi amplamente debatido, no entanto, continua a fazer sentido.
Quando vejo crianças com seis anos com unhas e cabelos pintados, usando acessórios de uma adolescente de 16 anos, penso que aquela criança deve estar um pouco baralhada e que vem com uma década de antecipação. Esta é a geração da antecipação (passe a rima não propositada): nos adolescentes antecipa-se a idade adulta; aqui poderão dizer-me que já no “nosso” tempo era assim, que todos os jovens querem ser “grandes”. Correcto, a diferença é que queríamos mas não podíamos porque os nossos pais não nos deixavam (honra lhes seja feita). Nas crianças antecipa-se a adolescência e isto ainda me parece mais grave: ter um telemóvel aos seis anos, pintar as unhas ou o cabelo quando ainda a dentição conhece as primeiras baixas não me parece coerente. Estamos noutros tempos, é verdade, contudo e pelo o que testemunho, uma criança prefere sempre um chupa-chupa a um vale Fnac, e se lhe derem uma sala vazia durante duas horas, essa sala ao fim desse tempo não será a mesma, porque foi invadida de traquinice e brincadeira.
È preciso deixar que as bolas, elásticos e bonecas inundem de infância as nossas crianças. Deixemo-las brincar com mãos sujas de riso e de tanta apanhada. Só assim formaremos adultos saudáveis. Como diria João dos Santos “O segredo do homem é a sua infância”.
Vanessa Limpo.
In "Expresso SemMais", edição de 5 de Julho de 2008
domingo, 22 de junho de 2008
Manjericos e águas-furtadas
Dos Manjericos e águas-furtadas.
“Santo António já se acabou…o S. Pedro está-se a acabar…”. Ora não precisarei de terminar a famosa quadra popular pois todos os leitores já a conhecem de cor.
Os santos populares são, antes de mais, uma época de coesão, de celebração, não dos santos que dão nome aos festejos (quem se lembra de brindar ao santo António nos arraiais? Quem de facto compraria um manjerico fora da época?) mas do anseio de, durante, uns dias adiar-mos, esquecermos ou sublimarmos alguns escombros não resolvidos.
Os festejos surgem, não de uma vontade de relembrar um ícone religioso mas da necessidade que todos sentimos de celebrar-nos, a nós, aos nossos e até aqueles que não pertencendo à nossa galeria pessoal de afectos, se aproximam de nós nesta partilha e troca de luz, som, regada com o sabor das sardinhas assadas ou do caldo verde que anos e anos volvidos ainda continua a fumegar na tigela da nossa memória.
Somos também mais francos, mais puros e autênticos (“iguais a nós próprios” como se diz muito agora) quando nos esquecemos de vestir a farda do quotidiano cujas bainhas se cosem com as linhas do stress, ansiedade e, sejamos francos, alguma insensibilidade.
Embainhando um copo e uma sardinha somos até capazes de rir, fruir os momentos de folia junto daqueles que, curiosamente, ate nos acompanham no dia-a-dia mas que à luz do verde, vermelho e amarelo que polvilham os arraiais, ganham contornos daquilo que sempre se comprometeram a ser – a nossa (melhor) companhia.
Sendo que nunca fui muito fã de alegria com hora marcada, confesso contudo que gosto de observar e misturar-me neste “Natal de verão”, que em si encerra a promessa de um tempo suspenso, mais luminoso e feliz, ou o desejo de nos apaziguarmos um pouco com o cinzento que cobre os nosso dias. Uma certeza fica e a ela brindamos: para o ano há mais! As águas-furtadas da cidade disso são testemunhas e os santos, ali tão perto, abençoam mais uma rodada de folia.
Vanessa Limpo
in, "Expresso SemMais", edição de 21 de Junho de 2008.
“Santo António já se acabou…o S. Pedro está-se a acabar…”. Ora não precisarei de terminar a famosa quadra popular pois todos os leitores já a conhecem de cor.
Os santos populares são, antes de mais, uma época de coesão, de celebração, não dos santos que dão nome aos festejos (quem se lembra de brindar ao santo António nos arraiais? Quem de facto compraria um manjerico fora da época?) mas do anseio de, durante, uns dias adiar-mos, esquecermos ou sublimarmos alguns escombros não resolvidos.
Os festejos surgem, não de uma vontade de relembrar um ícone religioso mas da necessidade que todos sentimos de celebrar-nos, a nós, aos nossos e até aqueles que não pertencendo à nossa galeria pessoal de afectos, se aproximam de nós nesta partilha e troca de luz, som, regada com o sabor das sardinhas assadas ou do caldo verde que anos e anos volvidos ainda continua a fumegar na tigela da nossa memória.
Somos também mais francos, mais puros e autênticos (“iguais a nós próprios” como se diz muito agora) quando nos esquecemos de vestir a farda do quotidiano cujas bainhas se cosem com as linhas do stress, ansiedade e, sejamos francos, alguma insensibilidade.
Embainhando um copo e uma sardinha somos até capazes de rir, fruir os momentos de folia junto daqueles que, curiosamente, ate nos acompanham no dia-a-dia mas que à luz do verde, vermelho e amarelo que polvilham os arraiais, ganham contornos daquilo que sempre se comprometeram a ser – a nossa (melhor) companhia.
Sendo que nunca fui muito fã de alegria com hora marcada, confesso contudo que gosto de observar e misturar-me neste “Natal de verão”, que em si encerra a promessa de um tempo suspenso, mais luminoso e feliz, ou o desejo de nos apaziguarmos um pouco com o cinzento que cobre os nosso dias. Uma certeza fica e a ela brindamos: para o ano há mais! As águas-furtadas da cidade disso são testemunhas e os santos, ali tão perto, abençoam mais uma rodada de folia.
Vanessa Limpo
in, "Expresso SemMais", edição de 21 de Junho de 2008.
domingo, 8 de junho de 2008
The G Generation
A Geração “G”
A geração “G”? então mas não era “X”? O leitor que me perdoe, mas não, esta não foi uma gralha ortográfica, existe mesmo uma geração “G” e passo a explicar.
A minha geração (a que se encontra agora entre os 29, 30, 31 anos) é a geração “G”. O “G” para qualquer indivíduo que pertença a esta faixa etária vai fazer todo o sentido quando eu disser essa palavra mágica que fez as delícias da nossa infância e/ou puberdade. O “G” é de “Gorila”, as míticas pastilhas que tanto mascámos com incomensurável deleite. Eu confesso que as pastilhas “Gorila” estavam para mim, em termos de prazer gustativo, como outro símbolo mítico desta geração: o “Epa”. Ora podem-me dizer que o “Epa” ainda existe mas todos sabemos que não colhe o mesmo sucesso dos idos da década de 80 em que era, provavelmente, o gelado que mais sucesso (logo seguido pelo “Calippo” e o “Perna de Pau”) tinha junto da pequenada.
O nosso maior maior deleite era não tanto o gelado em sim mas aquele momento único em que se avistava, redonda e cremosa, envolvida na alva cobertura do gelado, a pastilha elástica. Esse momento valia toda uma tarde de escola à sua espera.
Ora as “Gorila” traziam o mesmo tipo de prazer; quantas vezes vi a alegria dos meus colegas a abrir, com um sorriso do tamanho da sua infância, o papelinho que vinha sempre com a pastilha.
O mesmo se passava com os cromos “Tou” que agora se encontram numa época de revival, sendo que fazem já parte do panteão vintage das gulodices dos anos 80. Criança que se prezasse jamais comprava um “Bollycao” apenas pelo deguste, subrepticiamente todos ansiávamos pelo novo “Tou”. Até os “Douradinhos da Iglo” traziam cromos para coleccionar e sei que ainda abundam muitos no pó de que as memórias de infância são feitas.
Falar da meninice, das suas memórias e sabores é algo infindável. Páginas e páginas seriam necessárias para condensar todos os símbolos e referências que a ela estão associadas. Contudo, e apesar de todos os rótulos que a minha geração já passou, desafio as gerações vindouras a poderem partilhar memórias tão doces e prazerosas como estas.
Haverá algo mais saboroso que ouvir, subitamente, quando menos esperamos, as canções da “Ana e os Queijinhos Frescos”? Pois, eu sei…uma autêntica delícia!
Vanessa Limpo
In "Expresso SemMais", edição de 7 de Junho de 2008
A geração “G”? então mas não era “X”? O leitor que me perdoe, mas não, esta não foi uma gralha ortográfica, existe mesmo uma geração “G” e passo a explicar.
A minha geração (a que se encontra agora entre os 29, 30, 31 anos) é a geração “G”. O “G” para qualquer indivíduo que pertença a esta faixa etária vai fazer todo o sentido quando eu disser essa palavra mágica que fez as delícias da nossa infância e/ou puberdade. O “G” é de “Gorila”, as míticas pastilhas que tanto mascámos com incomensurável deleite. Eu confesso que as pastilhas “Gorila” estavam para mim, em termos de prazer gustativo, como outro símbolo mítico desta geração: o “Epa”. Ora podem-me dizer que o “Epa” ainda existe mas todos sabemos que não colhe o mesmo sucesso dos idos da década de 80 em que era, provavelmente, o gelado que mais sucesso (logo seguido pelo “Calippo” e o “Perna de Pau”) tinha junto da pequenada.
O nosso maior maior deleite era não tanto o gelado em sim mas aquele momento único em que se avistava, redonda e cremosa, envolvida na alva cobertura do gelado, a pastilha elástica. Esse momento valia toda uma tarde de escola à sua espera.
Ora as “Gorila” traziam o mesmo tipo de prazer; quantas vezes vi a alegria dos meus colegas a abrir, com um sorriso do tamanho da sua infância, o papelinho que vinha sempre com a pastilha.
O mesmo se passava com os cromos “Tou” que agora se encontram numa época de revival, sendo que fazem já parte do panteão vintage das gulodices dos anos 80. Criança que se prezasse jamais comprava um “Bollycao” apenas pelo deguste, subrepticiamente todos ansiávamos pelo novo “Tou”. Até os “Douradinhos da Iglo” traziam cromos para coleccionar e sei que ainda abundam muitos no pó de que as memórias de infância são feitas.
Falar da meninice, das suas memórias e sabores é algo infindável. Páginas e páginas seriam necessárias para condensar todos os símbolos e referências que a ela estão associadas. Contudo, e apesar de todos os rótulos que a minha geração já passou, desafio as gerações vindouras a poderem partilhar memórias tão doces e prazerosas como estas.
Haverá algo mais saboroso que ouvir, subitamente, quando menos esperamos, as canções da “Ana e os Queijinhos Frescos”? Pois, eu sei…uma autêntica delícia!
Vanessa Limpo
In "Expresso SemMais", edição de 7 de Junho de 2008
sábado, 24 de maio de 2008
Aparecer offline
Estava eu hoje no meu périplo habitual pelos meus blogs preferidos, ritual quase insconsciente em que mergulho (quase) todos os dias e ao ler o texto escrito por uma amiga nesse seu espaço virtual não pude deixar de concordar com as suas palavras, acenando ao ler o texto como que anuindo e respondendo-lhe directamente através do gesto.
Falava esta amiga, entre outras coisas, no facilitismo e laxismo em que hoje nos encontramos. Já sei o que o leitor espera: mais um aborrecido discurso sobre a (des)graça da sociedade contemporânea e a galopante perda de valores.
Não o maço com tal tema, e daí talvez o faça. Tudo depende do tempo e vontade que tenha para me ler. Hoje ninguém tem tempo, não só para os outros, mas sobretudo e mais grave, para si. E quando falo em tempo, engano-me (coisa rara hoje, quase ninguém se engana, comete erros) quero dizer espaço.
Hoje não há espaço para os Outros em Nós. O Tempo, tal como o entendemos, está sempre lá, ou melhor, aqui e agora. Não é o tempo dos relógios, das filas, das horas de ponta, é o tempo que (nos)damos aos Outros. A disponibilidade para os receber em nós, para os Ouvir e sobretudo para os sentir.
Peço desculpa em tomar o seu tempo, mas penso ainda no fenómeno da Internet (exaustivas as discussões dos seus efeitos nocivos) e nos chats, e em todas as solidões que se vestem por detrás: o subterfúgio da comunicação, o refúgio de tantos cansaços. Comunicamos mascarados de nicks, mudamos o estatuto no MSN como nos aprouver e quando não nos apetece, aparecemos offline. Não sou contra a Net, muito pelo contrário, não sou juíz (falta-me o talento, mas conheço cada vez mais juízes no dia-a-dia), apenas me preocupo com as falsas faltas de tempo, de disponibilidade; tempo que muitas vezes é devorado a tentar comunicar dedilhando palavras ocas, criando uma verdade nova à distância de um ecrã. Talvez seja mesmo preciso “dar um tempo” a tudo isto e mergulharmos num outro tempo, aquele em que nos sentamos, olhamos e encaramos o Outro com, como dizia a minha avó, mais vagar.
Vanessa Limpo
in "Expresso SemMais", edição de dia 24 de Maio de 2008
Falava esta amiga, entre outras coisas, no facilitismo e laxismo em que hoje nos encontramos. Já sei o que o leitor espera: mais um aborrecido discurso sobre a (des)graça da sociedade contemporânea e a galopante perda de valores.
Não o maço com tal tema, e daí talvez o faça. Tudo depende do tempo e vontade que tenha para me ler. Hoje ninguém tem tempo, não só para os outros, mas sobretudo e mais grave, para si. E quando falo em tempo, engano-me (coisa rara hoje, quase ninguém se engana, comete erros) quero dizer espaço.
Hoje não há espaço para os Outros em Nós. O Tempo, tal como o entendemos, está sempre lá, ou melhor, aqui e agora. Não é o tempo dos relógios, das filas, das horas de ponta, é o tempo que (nos)damos aos Outros. A disponibilidade para os receber em nós, para os Ouvir e sobretudo para os sentir.
Peço desculpa em tomar o seu tempo, mas penso ainda no fenómeno da Internet (exaustivas as discussões dos seus efeitos nocivos) e nos chats, e em todas as solidões que se vestem por detrás: o subterfúgio da comunicação, o refúgio de tantos cansaços. Comunicamos mascarados de nicks, mudamos o estatuto no MSN como nos aprouver e quando não nos apetece, aparecemos offline. Não sou contra a Net, muito pelo contrário, não sou juíz (falta-me o talento, mas conheço cada vez mais juízes no dia-a-dia), apenas me preocupo com as falsas faltas de tempo, de disponibilidade; tempo que muitas vezes é devorado a tentar comunicar dedilhando palavras ocas, criando uma verdade nova à distância de um ecrã. Talvez seja mesmo preciso “dar um tempo” a tudo isto e mergulharmos num outro tempo, aquele em que nos sentamos, olhamos e encaramos o Outro com, como dizia a minha avó, mais vagar.
Vanessa Limpo
in "Expresso SemMais", edição de dia 24 de Maio de 2008
terça-feira, 20 de maio de 2008
L'être et le paraître
"Fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido com roupa passada a ferro, restos de chamas dentro do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir que está tudo bem.
Olhas-me e só tu sabes: na rua onde os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas não imaginam: são tão ridículas as pessoas (...): nós olhamo-nos; fingir que está tudo bem: o sangue a ferver sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de medo nos lábos a sorrir (...) Olhas-me e so tu sabes: ferros em brasa, fogo, silêncio e chuvaque não se pode dizer: amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir : um oceano que nos queima, um incêncio que nos afoga."
José Luís Peixoto
segunda-feira, 12 de maio de 2008
Do traje domingueiro...
Do traje domingueiro
Sábado à tarde, grande superfície comercial (passo a quase redundância), olho à volta e para além da enchente típica de gente, fruto da época (vulgo início do mês), um fenómeno que não me (nos) é estranho capta a minha atenção.
Esse fenómeno tem um nome, todos nós o conhecemos e /ou já ouvimos falar nele. Hoje vou um pouco mais longe e debruço-me sobre ele. Falo do “fenómeno-do-fato-de-treino-ao-fim-de-semana-com-especial-destaque-para-os-domingos”.
O portador desta indumentária é geralmente masculino, encontra-se entre os quarenta e sessenta anos (embora tenha avistado já elementos do sexo feminino adeptos desta tendência Primavera – Verão - Outono e Inverno) e as suas preferências situam-se no ambiente retro (fatos de treino que datam, no mínimo de 1985) e as cores mais frequentemente usadas são nos tons azul-escuro / azul claro, preto, sendo que o denominador comum é a indispensável risca branca que atravessa, obstinadamente, todo o tecido ao nível da cintura ou, em alguns modelos, a parte inferior da perna.
O fato de treino, como o nome indica – ou deveria designar - foi criado a pensar em situações concretas, restritas, de exercício físico. Ora visto que o Português é, por norma, um reformulador nato de conceitos, reinventou a ideia que subjaz ao uso do fato de treino conseguindo realizar a proeza de o vestir em todos os contextos menos naquele para o qual foi criado.
Assim, pululam fatos de treino por esses fins-de-semana fora, usados orgulhosamente numa qualquer superfície. E quando digo superfície sem especificar qual, é mesmo porque qualquer espaço (de preferência público - que em casa o pijama é quem mais ordena) serve para a ostentação deste traje domingueiro tão amado por tantos. Antes ia-se para a missa com o melhor fato que se tinha, hoje sai-se de casa… com qualquer coisa.
Portanto, sabendo já de antemão o que no próximo fim-de-semana me espera, fatos de treino deste país: encontramo-nos num Domingo perto de nós.
Vanessa Limpo
in "Expresso SemMais", edição de 10 de Maio de 2008
Sábado à tarde, grande superfície comercial (passo a quase redundância), olho à volta e para além da enchente típica de gente, fruto da época (vulgo início do mês), um fenómeno que não me (nos) é estranho capta a minha atenção.
Esse fenómeno tem um nome, todos nós o conhecemos e /ou já ouvimos falar nele. Hoje vou um pouco mais longe e debruço-me sobre ele. Falo do “fenómeno-do-fato-de-treino-ao-fim-de-semana-com-especial-destaque-para-os-domingos”.
O portador desta indumentária é geralmente masculino, encontra-se entre os quarenta e sessenta anos (embora tenha avistado já elementos do sexo feminino adeptos desta tendência Primavera – Verão - Outono e Inverno) e as suas preferências situam-se no ambiente retro (fatos de treino que datam, no mínimo de 1985) e as cores mais frequentemente usadas são nos tons azul-escuro / azul claro, preto, sendo que o denominador comum é a indispensável risca branca que atravessa, obstinadamente, todo o tecido ao nível da cintura ou, em alguns modelos, a parte inferior da perna.
O fato de treino, como o nome indica – ou deveria designar - foi criado a pensar em situações concretas, restritas, de exercício físico. Ora visto que o Português é, por norma, um reformulador nato de conceitos, reinventou a ideia que subjaz ao uso do fato de treino conseguindo realizar a proeza de o vestir em todos os contextos menos naquele para o qual foi criado.
Assim, pululam fatos de treino por esses fins-de-semana fora, usados orgulhosamente numa qualquer superfície. E quando digo superfície sem especificar qual, é mesmo porque qualquer espaço (de preferência público - que em casa o pijama é quem mais ordena) serve para a ostentação deste traje domingueiro tão amado por tantos. Antes ia-se para a missa com o melhor fato que se tinha, hoje sai-se de casa… com qualquer coisa.
Portanto, sabendo já de antemão o que no próximo fim-de-semana me espera, fatos de treino deste país: encontramo-nos num Domingo perto de nós.
Vanessa Limpo
in "Expresso SemMais", edição de 10 de Maio de 2008
domingo, 27 de abril de 2008
Verdadeiras pérolas...
Verdadeiras pérolas…
Uma das evidências que mais me tem assolado o espírito ultimamente – e estou certa que a vocês também, estimados leitores, pois esta constatação é digna de assolar até as mais ilustres mentes – é a chamada “Pandemia da Pérola”.
Ora como todos nós sabemos, não há cidade, vila e quiçá até aldeia ortuguesa que não tenha um estabelecimento comercial dedicado à venda de cafeína, vulgo caf,é que não se chame “A Pérola de….” ou tout court “Pérola de…” (sendo que as reticências correspondem ao nome da localidade em questão).
De facto, ainda a semana passada tive de ir a essa localidade mítica que é a Torre da Marinha, quando de repente me deparo com algo que, no fundo, já estava (estamos todos) à espera: um café designado “A Pérola da Torre”. Mas mesmo assim creio que a Torre da Marinha ainda tem muito que aprender, encontra-se num estado ainda imberbe dado que em Almada (centro) conto num raio de menos de dois quilómetros com duas verdadeiras “pérolas”): “A Pérola de Almada” e “A Pérola do Cristo Rei”. Ora a “A Pérola do Cristo Rei” situa-se no Pragal que, a bem dizer e bem vistas as coisas, se localiza, ora deixa cá ver, em…Almada.
Ninguém se opõe a que Almada tenha cafés que sejam umas pérolas no seu serviço, mas duas pérolas em menos de cinco quilómetros? A meu ver são pérolas a mais mas quem sou eu?
Fazendo ainda uma rápida pesquisa num conhecido motor de pesquisa na Internet verifico que há todo um admirável mundo novo em torno das Pérolas para baptizar cafés: em Barcelos há a “Pérola do Neiva Lda”, em Cascais há a “Charcutaria Pérola das Fontainhas Lda” (e neste caso até se cruzam duas realidades inusitadas: a pá de porco preto com as pérolas, se isto não é marketing do melhor, não sei o que será!), passando depois para versões pop desta pedra preciosa “Café – Snack Bar Pérola”, no Sardoal. Até o Funchal já tem uma pérola -“A Pérola dos cafés”-, sendo que aqui se inova, remetendo a pérola para o café em si e não para a localidade onde este se encontra.
Não duvido que os cafés deste nosso país não sejam meritórios de tão enaltecedora designação, contudo isto leva-me a pensar que há uma crise de imaginação aquando do registo dos estabelecimentos. Quando numa rápida pesquisa encontramos algo como “A Pérola do Orvalho” (em Orvalho, concelho de Oleiros) faz-nos pensar quem foi o autor desta “jóia” de ideia.
Uma das evidências que mais me tem assolado o espírito ultimamente – e estou certa que a vocês também, estimados leitores, pois esta constatação é digna de assolar até as mais ilustres mentes – é a chamada “Pandemia da Pérola”.
Ora como todos nós sabemos, não há cidade, vila e quiçá até aldeia ortuguesa que não tenha um estabelecimento comercial dedicado à venda de cafeína, vulgo caf,é que não se chame “A Pérola de….” ou tout court “Pérola de…” (sendo que as reticências correspondem ao nome da localidade em questão).
De facto, ainda a semana passada tive de ir a essa localidade mítica que é a Torre da Marinha, quando de repente me deparo com algo que, no fundo, já estava (estamos todos) à espera: um café designado “A Pérola da Torre”. Mas mesmo assim creio que a Torre da Marinha ainda tem muito que aprender, encontra-se num estado ainda imberbe dado que em Almada (centro) conto num raio de menos de dois quilómetros com duas verdadeiras “pérolas”): “A Pérola de Almada” e “A Pérola do Cristo Rei”. Ora a “A Pérola do Cristo Rei” situa-se no Pragal que, a bem dizer e bem vistas as coisas, se localiza, ora deixa cá ver, em…Almada.
Ninguém se opõe a que Almada tenha cafés que sejam umas pérolas no seu serviço, mas duas pérolas em menos de cinco quilómetros? A meu ver são pérolas a mais mas quem sou eu?
Fazendo ainda uma rápida pesquisa num conhecido motor de pesquisa na Internet verifico que há todo um admirável mundo novo em torno das Pérolas para baptizar cafés: em Barcelos há a “Pérola do Neiva Lda”, em Cascais há a “Charcutaria Pérola das Fontainhas Lda” (e neste caso até se cruzam duas realidades inusitadas: a pá de porco preto com as pérolas, se isto não é marketing do melhor, não sei o que será!), passando depois para versões pop desta pedra preciosa “Café – Snack Bar Pérola”, no Sardoal. Até o Funchal já tem uma pérola -“A Pérola dos cafés”-, sendo que aqui se inova, remetendo a pérola para o café em si e não para a localidade onde este se encontra.
Não duvido que os cafés deste nosso país não sejam meritórios de tão enaltecedora designação, contudo isto leva-me a pensar que há uma crise de imaginação aquando do registo dos estabelecimentos. Quando numa rápida pesquisa encontramos algo como “A Pérola do Orvalho” (em Orvalho, concelho de Oleiros) faz-nos pensar quem foi o autor desta “jóia” de ideia.
Vanessa Limpo
in "Expresso SemMais", edição de 26 de Abril de 2008
quinta-feira, 10 de abril de 2008
A idade da inocência
A idade da inocência
Estava eu numa das minhas aulas com crianças entre os seis e os sete anos, quando fui alvo de uma pergunta (que só as crianças sabem e têm a coragem de fazer, sobretudo pelo facto de nem terem consciência que a têm) feita por uma delas: “Ó ‘setôra’, mas a ‘setôra’ ainda tem avôs?” (e sim, até na escola primária o epidémico ‘setôra’ já chegou e já não é de agora).
Ora perante esta pergunta (sê-la-ia mesmo?) assaltaram-me logo dois pensamentos: primeiro o de ir a correr comprar tintas para o cabelo de forma a aniquilar quaisquer sinais exteriores de velhice, sim que como é sabido, para uma criança de seis anos, qualquer pessoa com mais de vinte está a prestes a expirar o seu prazo de validade, o que é normal, se pensarmos que ter seis anos é ser-se vergonhosamente jovem. O segundo pensamento (e último do dia, que quem dá o que tem a mais não é obrigado) levou-me a pensar de forma mais vasta e, nomeadamente, no conceito de idade.
Quando tinha seis anos queria ter (como toda a gente) dezoito, quando me chamavam “menina” não gostava, queria ser “crescida”, quando me diziam para me ir deitar antes da hora, queria ser “grande” porque os “grandes” tinham liberdade para fazerem tudo o que quisessem.
Quando tinha seis anos tinha em mim todas as certezas do mundo e sobretudo, a principal, saber que ia crescer. Hoje, até tenho vontade de abraçar quem me chama “menina”, ou quando me dá menos idade do que a tenho. Hoje agradeço o facto de ainda ter avôs, apesar de ser um facto “espantoso” para a compreensão de uma criança de seis anos. Um professor nunca pode ter menos de cinquenta e nunca deverá apresentar-se ao serviço sem alguns cabelos todos brancos. Compreendo-os. O que os tento fazer entender, falando na melhor língua que conheço - a “língua-criança” - é que eles de facto são totalmente livres. No mês dos Cravos, haverá maior liberdade que estar na idade em que ainda falta tanto tempo para tudo?
Vanessa Limpo
in "SemMais" edição de 12 de Abril de 2008
Estava eu numa das minhas aulas com crianças entre os seis e os sete anos, quando fui alvo de uma pergunta (que só as crianças sabem e têm a coragem de fazer, sobretudo pelo facto de nem terem consciência que a têm) feita por uma delas: “Ó ‘setôra’, mas a ‘setôra’ ainda tem avôs?” (e sim, até na escola primária o epidémico ‘setôra’ já chegou e já não é de agora).
Ora perante esta pergunta (sê-la-ia mesmo?) assaltaram-me logo dois pensamentos: primeiro o de ir a correr comprar tintas para o cabelo de forma a aniquilar quaisquer sinais exteriores de velhice, sim que como é sabido, para uma criança de seis anos, qualquer pessoa com mais de vinte está a prestes a expirar o seu prazo de validade, o que é normal, se pensarmos que ter seis anos é ser-se vergonhosamente jovem. O segundo pensamento (e último do dia, que quem dá o que tem a mais não é obrigado) levou-me a pensar de forma mais vasta e, nomeadamente, no conceito de idade.
Quando tinha seis anos queria ter (como toda a gente) dezoito, quando me chamavam “menina” não gostava, queria ser “crescida”, quando me diziam para me ir deitar antes da hora, queria ser “grande” porque os “grandes” tinham liberdade para fazerem tudo o que quisessem.
Quando tinha seis anos tinha em mim todas as certezas do mundo e sobretudo, a principal, saber que ia crescer. Hoje, até tenho vontade de abraçar quem me chama “menina”, ou quando me dá menos idade do que a tenho. Hoje agradeço o facto de ainda ter avôs, apesar de ser um facto “espantoso” para a compreensão de uma criança de seis anos. Um professor nunca pode ter menos de cinquenta e nunca deverá apresentar-se ao serviço sem alguns cabelos todos brancos. Compreendo-os. O que os tento fazer entender, falando na melhor língua que conheço - a “língua-criança” - é que eles de facto são totalmente livres. No mês dos Cravos, haverá maior liberdade que estar na idade em que ainda falta tanto tempo para tudo?
Vanessa Limpo
in "SemMais" edição de 12 de Abril de 2008
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