Sabem quando uma canção nos invade o espaço cerebral abruptamente? Assim sem pedir licença? E depois instala-se o dia inteiro na nossa mente e de lá não sai enquanto não a trautearmos em voz alta e passarmos, inevitavelmente pela vergonha de sermos apanhados com a boca na cantiga?
Sabem não sabem? Nestes últimos dias tenho andado com “Um brilhozinho nos olhos” do Sérgio Godinho. “(…) É que hoje fiz um amigo / e coisa mais preciosa no mundo não há”. Todos dizemos que para além da família (mais próxima pelo menos) os amigos são o que de mais importante temos. Todavia, se pensarmos bem na relação amizade / tempo dispendido com ela, veremos que muito provavelmente não estamos a estabelecer as prioridades nos seus meritórios lugares.
Falta de tempo, de espaço, de lugar na agenda; um “temos de combinar qualquer coisa, assim para a semana, um café ou um almoço e não te esqueças de ligar ao "X”. Por falta de tempo, a organização do encontro que fomos nós a sugerir acaba por ser delegada na pessoa com a qual queremos estar.
Mais fácil dito que feito dirão alguns? Verdade. Num horário que varia, na maioria das vezes, entre as-crianças-que-têm-de-ser-levadas-à -escola, dos banhos a dar, dos deveres a verificar, do jantar para decidir, a “coisa mais preciosa” perde chão, afogando-se no terreno árido dos dias úteis (?).
Falta-nos tempo, é verdade, lembramo-nos dos que queremos bem, não o nego, Sou vítima também de alguns dos obstáculos rotineiros: a distância física, a falta de tempo mas também culpada, porque nem sempre todos os espaços da agenda estão repletos, nem todas as distâncias são tão longas. Como eu? todos nós. Que nos desculpamos connosco mesmos, que velamos algum laxismo sob o manto dos horários completos, cheios de nós e dos nossos afazeres.
Mas quando finalmente o café, chá ou jantar chega que bem sabe saboreá-lo. Vivemos o reencontro como se nunca nos tivéssemos afastado dos que queremos… mas nem sempre. Vezes há em que o embaraço se sobrepôs ao tempo, em que a vida que vivemos até então já não cabe no espaço que a distância criou.
É contra isso que tento lutar, nem sempre saio vitoriosa, assumo. Estou muito longe e muito menos do que gostaria de estar com os meus amigos. A vida coloca-se entre nós, mas também é ela que a eles nos devolve. Outro dia estive com uma amiga, revisitámo-nos em conversa amena e devo dizer-vos que apesar da qualidade do momento, “soube-me a pouco”.
Vanessa Limpo
in "Expresso Sem Mais", edição de 18 de Outubro de 2008
terça-feira, 21 de outubro de 2008
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
A noite passada
"A noite passada acordei com o teu beijo
descias o Douro e eu fui-te buscar ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti: " então não voas?"
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela
e voaste
A noite passada fui passear ao mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo dormias lá no fundo
faltou-me o pé senti que me afundava
por entre as algas o teu cabelo boiava
a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos
e então dissemos
aqui vivemos muitos anos
A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti disse baixinho "olá"
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então tu olhaste
depois sorriste
disseste: "ainda bem que voltaste".
A noite passada, Sérgio Godinho
Para J... todos os dias são um regresso.
descias o Douro e eu fui-te buscar ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti: " então não voas?"
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela
e voaste
A noite passada fui passear ao mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo dormias lá no fundo
faltou-me o pé senti que me afundava
por entre as algas o teu cabelo boiava
a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos
e então dissemos
aqui vivemos muitos anos
A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti disse baixinho "olá"
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então tu olhaste
depois sorriste
disseste: "ainda bem que voltaste".
A noite passada, Sérgio Godinho
Para J... todos os dias são um regresso.
terça-feira, 14 de outubro de 2008
(P)reserva
Vinha hoje no metro (já sei, a síndrome dos transportes públicos já não se aguenta mas hélas, é ali o epicentro do meu dia laboral) quando comecei a pensar nas diferentes formas que cada um tem de tentar ultrapassar a situação que ,no fundo, é sempre algo embaraçante: estarmos diariamente sentados, ao lado, esmagados (soterrados em algumas situações limite) junto com uma multidão de indivíduos que não conhecemos e que por breves momentos temos de partilhar alguns dos nossos preciosos sentidos.
Comecemos com a visão: somos forçados a olhar para quem está à nossa frente, e ao olharmos mentalmente estabelecemos logo toda uma panóplia de juízos, ilações e perfil dessa pessoa. A roupa, os adereços ajudam-nos todos os dias a entrarmos um pouco na vida dos outros.
Ouvimos, mesmo que involuntariamente, as possíveis conversas telefónicas que os outros têm, parte da agenda de cada um de nós é quotidianamente partilhada com um conjunto de ouvintes que embora esteja ali presente, não o está ao nível da nossa consciência ou, pelo menos, da nossa atenção. Poucas situações nos despem tanto como quando estamos num transporte. A consciência de que estamos a ser vistos, cheirados, ouvidos, sentidos, surge apenas se algo escapa à nossa actuação rotineira: uma palavra mais forte ao telemóvel, um encontrão súbito, um pedido de indicação.
Contudo sendo nós mestres do disfarce, da fuga ao que nos pode expor, pedimos ajuda às tecnologias (o nosso primeiro-ministro iria gostar agora desta parte, tudo o que tem a palavra tecnológico merece a sua atenção) para nos cobrir com mantos de música, (MP3, Ipods), escrita (sms), sendo estas trocadas apenas (em poucos mas bons casos) pela leitura: lê-se mais hoje nos transportes, tanto que já não me sinto uma extra-terrestre (mas apenas nesta situação, há que o salientar) quando abro um livro. Todavia até aqui criamos estratégias de subterfúgio aos Outros: é muito comum notar que as pessoas trazem livros forrados a branco, como que a proteger-se de olhares indevidos (talvez por vergonha, ou por privacidade apenas).
Num mundo cada vez mais testemunha de si próprio, encurtado pelos avanços tecnológicos em que todos sabemos tudo à distância de um clic ou mensagem, é curioso ver que há tradições que ainda são o que eram: ainda nos surpreendemos com o que nos é estranho, rimos com o que nos é comum e procuramos aquilo que nos preserva.
Vanessa Limpo
in "Expresso Sem Mais", edição de 4 de Outubro de 2008
Comecemos com a visão: somos forçados a olhar para quem está à nossa frente, e ao olharmos mentalmente estabelecemos logo toda uma panóplia de juízos, ilações e perfil dessa pessoa. A roupa, os adereços ajudam-nos todos os dias a entrarmos um pouco na vida dos outros.
Ouvimos, mesmo que involuntariamente, as possíveis conversas telefónicas que os outros têm, parte da agenda de cada um de nós é quotidianamente partilhada com um conjunto de ouvintes que embora esteja ali presente, não o está ao nível da nossa consciência ou, pelo menos, da nossa atenção. Poucas situações nos despem tanto como quando estamos num transporte. A consciência de que estamos a ser vistos, cheirados, ouvidos, sentidos, surge apenas se algo escapa à nossa actuação rotineira: uma palavra mais forte ao telemóvel, um encontrão súbito, um pedido de indicação.
Contudo sendo nós mestres do disfarce, da fuga ao que nos pode expor, pedimos ajuda às tecnologias (o nosso primeiro-ministro iria gostar agora desta parte, tudo o que tem a palavra tecnológico merece a sua atenção) para nos cobrir com mantos de música, (MP3, Ipods), escrita (sms), sendo estas trocadas apenas (em poucos mas bons casos) pela leitura: lê-se mais hoje nos transportes, tanto que já não me sinto uma extra-terrestre (mas apenas nesta situação, há que o salientar) quando abro um livro. Todavia até aqui criamos estratégias de subterfúgio aos Outros: é muito comum notar que as pessoas trazem livros forrados a branco, como que a proteger-se de olhares indevidos (talvez por vergonha, ou por privacidade apenas).
Num mundo cada vez mais testemunha de si próprio, encurtado pelos avanços tecnológicos em que todos sabemos tudo à distância de um clic ou mensagem, é curioso ver que há tradições que ainda são o que eram: ainda nos surpreendemos com o que nos é estranho, rimos com o que nos é comum e procuramos aquilo que nos preserva.
Vanessa Limpo
in "Expresso Sem Mais", edição de 4 de Outubro de 2008
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
Parapeito...
"...nunca dês o coração a quem não quer (...) Evitei a vida como um pássaro que voa não se sabe como nem para onde, procurando apenas não pousar. Não passei pelas coisas, não compareci, inventei, fechei os olhos, menti, olhei de lado, disfarcei, sempre que pude, fugi. Hoje trago a alma branca, magoada de tanto protegê-la. Mas não a vendi. As minhas intenções eram boas, eu é que não as percebi. (...)A vida não me cabe no coração. (...)
Um dia vou no vaivém dos barcos que vejo da minha janela e atravesso o rio com eles. Um dia ponho os meus olhos num ponto do céu de onde nunca mais possam fugir, tão azul e tão longíquo, que eu nunca mais os possa reaver. (...) Um dia vou para as casas altas onde as coisas não se vêem. Ser como poeira num parapeito num mês sem vento. Um dia atiro a alma ao ar e serei friamente feliz. (...) Não me lembro do que aconteceu e do que inventei.
Mas um dia a minha alma foi contra a tua. Passámos dias inteiros agarrados. Não havia saída, nem dia, nem noite, nem eu, nem tu, nem vida lá fora. Era muito mais que amor.
O amor desdiz-se. Desmente-se. (...) O amor fica. (...) O amor fica, para nos lembrar da nossa fraqueza, da nossa doçura, da nossa humanidade. Para nos fazer mais pequenos do que pensámos. Para nos proteger da esperança. (...) Numa hora de amor envelhecemos vinte anos. (...) Era a nossa vida a passar."
Cemitério de raparigas, Miguel Esteves Cardoso,1996.
Um dia vou no vaivém dos barcos que vejo da minha janela e atravesso o rio com eles. Um dia ponho os meus olhos num ponto do céu de onde nunca mais possam fugir, tão azul e tão longíquo, que eu nunca mais os possa reaver. (...) Um dia vou para as casas altas onde as coisas não se vêem. Ser como poeira num parapeito num mês sem vento. Um dia atiro a alma ao ar e serei friamente feliz. (...) Não me lembro do que aconteceu e do que inventei.
Mas um dia a minha alma foi contra a tua. Passámos dias inteiros agarrados. Não havia saída, nem dia, nem noite, nem eu, nem tu, nem vida lá fora. Era muito mais que amor.
O amor desdiz-se. Desmente-se. (...) O amor fica. (...) O amor fica, para nos lembrar da nossa fraqueza, da nossa doçura, da nossa humanidade. Para nos fazer mais pequenos do que pensámos. Para nos proteger da esperança. (...) Numa hora de amor envelhecemos vinte anos. (...) Era a nossa vida a passar."
Cemitério de raparigas, Miguel Esteves Cardoso,1996.
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
There's no place like home...
Neste “querido mês de Agosto” que é sinónimo de férias e de viagens, proponho (se não para este últimos dias, então para o ano que vem) a verdadeira experiência de Verão, a viagem de referência, algo que nunca mais será esquecido e a preços de amigo.
Não me refiro a uma ida ao Algarve (santuário de peregrinação para, no mínimo, meio milhão de ingleses, uns bons milhares de alemães, franceses, italianos e demais europeus), mas antes a algo muito mais “em conta” e que não deixa de ser uma fonte in loco de conhecimento sobre os hábitos e tradições portugueses.
Falo, obviamente, de uma viagem na nossa Rede de Expressos. Viajar nesta conhecida rede transportadora é um desafio a várias das nossas capacidades Todos os trâmites comuns a qualquer viagem (comprar o bilhete, dirigir-se à pista de transporte, a viagem em si e depois a saída) constituem uma aventura única da qual jamais se esquecerá e fa-lo-á descobrir níveis de paciência nunca antes imaginados.
Uma vez na bilheteira ficamos espantados com a rapidez e eficiência com que somos atendidos. Quando pensamos que afinal até estamos num país de primeiro mundo eis que começam a surgir os sinais exteriores de “portugalidade”: um bar com mesas mas sem cadeiras (as mesas são de pé alto, o que para mim e muito bom português menos dotado no que a centímetros de altura diz respeito, em nada facilita a degustação de um pão de leite com um galãozinho quente), ausência da noção de fila para esperar pela vez, o que cedo nos leva a ir para outras bandas.
Ora, sem café mas com vontade de me sentar no meu lugar, dirijo-me à pista onde supostamente o autocarro deverá estar. Com a diferença que não, não está nem agora, que deveria partir, nem nos próximos 20 minutos. Levanto a cabeça e penso que o meu país não me traiu. Quando finalmente o autocarro chega, e separada a bagagem por diferentes destinos de paragem, sento-me e viajo até ao primeiro destino (sim que viagem portuguesa que se preze não pode passar sem a noção de transbordo).
Chegada ao meu destino de transbordo, não transbordo de alegria pois não só não consigo localizar a pista do autocarro que me está destinado (tal como os meus companheiros de viagem), como quando finalmente se descobre a almejada pista, a viatura não está lá… de novo. Tendo de esperar mais uns 10 minutos, o autocarro surge, e, postas as bagagens, procuro o meu lugar que tardo em encontrar, visto que, entretanto, foi ocupado por outros passageiros, porque lhes fora dito pelo motorista que os lugares que estão marcados no bilhete são para ignorar. No entanto, e porque noblesse oblige, retiraram-se e foram procurar o seu lugar por direito.
Após tanto percalço, espera e descoordenação chego ao meu destino, desço do autocarro e qual Dorothy (mas sem estrada de tijolos amarelos) penso: “there’s no place like home”.
Vanessa Limpo
in "Expresso Sem Mais", edição de 20 de Setembro de 2008.
Não me refiro a uma ida ao Algarve (santuário de peregrinação para, no mínimo, meio milhão de ingleses, uns bons milhares de alemães, franceses, italianos e demais europeus), mas antes a algo muito mais “em conta” e que não deixa de ser uma fonte in loco de conhecimento sobre os hábitos e tradições portugueses.
Falo, obviamente, de uma viagem na nossa Rede de Expressos. Viajar nesta conhecida rede transportadora é um desafio a várias das nossas capacidades Todos os trâmites comuns a qualquer viagem (comprar o bilhete, dirigir-se à pista de transporte, a viagem em si e depois a saída) constituem uma aventura única da qual jamais se esquecerá e fa-lo-á descobrir níveis de paciência nunca antes imaginados.
Uma vez na bilheteira ficamos espantados com a rapidez e eficiência com que somos atendidos. Quando pensamos que afinal até estamos num país de primeiro mundo eis que começam a surgir os sinais exteriores de “portugalidade”: um bar com mesas mas sem cadeiras (as mesas são de pé alto, o que para mim e muito bom português menos dotado no que a centímetros de altura diz respeito, em nada facilita a degustação de um pão de leite com um galãozinho quente), ausência da noção de fila para esperar pela vez, o que cedo nos leva a ir para outras bandas.
Ora, sem café mas com vontade de me sentar no meu lugar, dirijo-me à pista onde supostamente o autocarro deverá estar. Com a diferença que não, não está nem agora, que deveria partir, nem nos próximos 20 minutos. Levanto a cabeça e penso que o meu país não me traiu. Quando finalmente o autocarro chega, e separada a bagagem por diferentes destinos de paragem, sento-me e viajo até ao primeiro destino (sim que viagem portuguesa que se preze não pode passar sem a noção de transbordo).
Chegada ao meu destino de transbordo, não transbordo de alegria pois não só não consigo localizar a pista do autocarro que me está destinado (tal como os meus companheiros de viagem), como quando finalmente se descobre a almejada pista, a viatura não está lá… de novo. Tendo de esperar mais uns 10 minutos, o autocarro surge, e, postas as bagagens, procuro o meu lugar que tardo em encontrar, visto que, entretanto, foi ocupado por outros passageiros, porque lhes fora dito pelo motorista que os lugares que estão marcados no bilhete são para ignorar. No entanto, e porque noblesse oblige, retiraram-se e foram procurar o seu lugar por direito.
Após tanto percalço, espera e descoordenação chego ao meu destino, desço do autocarro e qual Dorothy (mas sem estrada de tijolos amarelos) penso: “there’s no place like home”.
Vanessa Limpo
in "Expresso Sem Mais", edição de 20 de Setembro de 2008.
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
Higiene a quanto obrigas
Eu sei, eu sei, já aqui falei sobremaneira de transportes e muitos dos hábitos, insólitos, rituais e demais comportamentos a eles associados mas não consigo, pura e simplesmente não consigo deixar de mencionar mais um.
Começo esta reflexão com uma pergunta (que pode ser lida retoricamente se se preferir pois por muito que pense não vejo resposta ou até solução possível para esta “problemática”). Por que razão não há casas de banho nos transportes públicos de pequeno (ou mesmo minúsculo) curso? Se os comboios, aviões, autocarros de longo de curso os têm, então por que motivo não os têm os outros?
A pergunta parece imbecil, pois se os transportes são de curtas distâncias não será de todo necessário a colocação de instalações sanitárias (eufemismo chiquíssimo para casas de banho, diga-se de passagem) pois as pessoas não precisarão dos serviços que estes oferecem.
Engano, puro engano. Ao fim de mais de uma década a utilizar variados transportes em diferentes pontos do país, constato que os passageiros necessitam com elevada premência destas instalações. E por que digo isto? Porque estou absolutamente cansada de ter de partilhar uma intimidade não desejada, inconveniente e até um pouco nauseante com os meus “colegas” passageiros: ora desde o recorrente barulho do corta-unhas a tentar eliminar restos mortais de queratina, ao escovar de cabelos, ao colocar do batom, ou ao sôfrego retirar de substâncias “naso-mucais” não identificadas (passe o neologismo), a tudo tenho eu assistido com pasmo e aflição.
Pasmo por pensar que em pleno século XXI ainda não se percebeu a diferença entre espaço público e privado e aflição por não poder sair na paragem seguinte.
Já não basta haver sempre fila quando vou ao Multibanco (e a pessoa que está à nossa frente tem sempre as contas todas do mês para pagar, incrível não é?) ao banco e demais serviços, ainda me deparo com estes pequenos rituais que desafiam qualquer lei higiénica em que qualquer semelhança com civismo é pura coincidência.
Pelo sim pelo não, começo cada vez mais a usar uma velha máxima de infância que agora aplico a este contexto e aqui a deixo para vós à laia de aviso: quando entrar num transporte público, faça como eu: “Pare, escute e olhe”.
Vanessa Limpo
in "Expresso Sem Mais", edição de dia 30 de Agosto de 2008
Começo esta reflexão com uma pergunta (que pode ser lida retoricamente se se preferir pois por muito que pense não vejo resposta ou até solução possível para esta “problemática”). Por que razão não há casas de banho nos transportes públicos de pequeno (ou mesmo minúsculo) curso? Se os comboios, aviões, autocarros de longo de curso os têm, então por que motivo não os têm os outros?
A pergunta parece imbecil, pois se os transportes são de curtas distâncias não será de todo necessário a colocação de instalações sanitárias (eufemismo chiquíssimo para casas de banho, diga-se de passagem) pois as pessoas não precisarão dos serviços que estes oferecem.
Engano, puro engano. Ao fim de mais de uma década a utilizar variados transportes em diferentes pontos do país, constato que os passageiros necessitam com elevada premência destas instalações. E por que digo isto? Porque estou absolutamente cansada de ter de partilhar uma intimidade não desejada, inconveniente e até um pouco nauseante com os meus “colegas” passageiros: ora desde o recorrente barulho do corta-unhas a tentar eliminar restos mortais de queratina, ao escovar de cabelos, ao colocar do batom, ou ao sôfrego retirar de substâncias “naso-mucais” não identificadas (passe o neologismo), a tudo tenho eu assistido com pasmo e aflição.
Pasmo por pensar que em pleno século XXI ainda não se percebeu a diferença entre espaço público e privado e aflição por não poder sair na paragem seguinte.
Já não basta haver sempre fila quando vou ao Multibanco (e a pessoa que está à nossa frente tem sempre as contas todas do mês para pagar, incrível não é?) ao banco e demais serviços, ainda me deparo com estes pequenos rituais que desafiam qualquer lei higiénica em que qualquer semelhança com civismo é pura coincidência.
Pelo sim pelo não, começo cada vez mais a usar uma velha máxima de infância que agora aplico a este contexto e aqui a deixo para vós à laia de aviso: quando entrar num transporte público, faça como eu: “Pare, escute e olhe”.
Vanessa Limpo
in "Expresso Sem Mais", edição de dia 30 de Agosto de 2008
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
The Private Intrigue of Melancholy
Hotels, hospitals, jails
are homes in yourself you return to
as some do to Garbo movies.
Cities become personal,
particular buildings and addresses:
someone lies dead.
Then the music from windows
writes a lovenote-summons on the air.
And you're infested with angels!
James Tate
are homes in yourself you return to
as some do to Garbo movies.
Cities become personal,
particular buildings and addresses:
someone lies dead.
Then the music from windows
writes a lovenote-summons on the air.
And you're infested with angels!
James Tate
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Os Olímpicos devem estar loucos!
Não, não vou falar sobre as polémicas mais recentes (e é muito difícil aqui utilizar a expressão recente pois ao ritmo que as tricas, comentários e comentários aos comentários aumentam, não há update que lhes resista) sobre os Jogos Olímpicos.
O(A) leitor(a) que fique, desde já, descansado(a) que não irá ler palavra alguma sobre essa temática.
Eu venho aqui falar do que é de facto importante nestes jogos e que, a meu ver, está em questão quando pensamos nas Olimpíadas. Creio que quando se pensa em Desporto (pelo menos a mim foi isso que me ensinaram), e ainda antes da palavra competição nos surgir, há umas quantas outras que emergem primeiro, a saber: equipa, empenho, esforço, desportivismo. Claro está que estas comezinhas coisas parecem não ter já qualquer força e tê-la-ão ainda menos se pensarmos num tipo de Olímpiadas que nunca está muito em voga, como os eventos ligados à deficiência nunca o estão.
Falo, obviamente, dos Jogos Paralímpicos… pois… lembram-se deles? Nós, portugueses somos medalhados em todos os metais que tanto admiramos e que tão sequiosamente ambicionamos ter! Em Atenas 2004, obtivemos 5 medalhas de Ouro, 6 medalhas de Prata e 5 de Bronze. Ora se isto não é motivo de orgulho, se não são medalhas suficientes para nos vangloriarmos das nossas capacidades, então eu devo estar muito enganada.
Mais do que ganhar medalhas, estes atletas ganharam algo que, por muito que se pense o inverso, não tem preço, não vem espelhado em diferentes metais, noticiado ou comentado, chama-se Respeito, esse velhinho amigo dos que a ele se prestam e o praticam, não como modalidade mas como modo de vida.
Desses atletas não reza a história, dos seus (poucos) apoios, dos seus longos anos de treino, do seu esforço quase supra-humano, do seu silêncio ao silêncio sobre o seu trabalho. Claro que se fala dos paralímpicos, dá-se lhes o tempo de antena comum que se dá a qualquer associação ou evento desportivo. Fala-se porque se realizaram e até ganham sempre umas medalhas. Depois, esquece-se de novo e volta o silêncio.
Isto, para mim, é que merece reflexão, debates e longos comentários. No rescaldo de umas Olímpiadas que ainda nem terminaram o sabor do esquecimento é já amargo, muito amargo.
Vanessa Limpo
in, "Expresso Sem Mais", edição de 23 de Agosto de 2008
O(A) leitor(a) que fique, desde já, descansado(a) que não irá ler palavra alguma sobre essa temática.
Eu venho aqui falar do que é de facto importante nestes jogos e que, a meu ver, está em questão quando pensamos nas Olimpíadas. Creio que quando se pensa em Desporto (pelo menos a mim foi isso que me ensinaram), e ainda antes da palavra competição nos surgir, há umas quantas outras que emergem primeiro, a saber: equipa, empenho, esforço, desportivismo. Claro está que estas comezinhas coisas parecem não ter já qualquer força e tê-la-ão ainda menos se pensarmos num tipo de Olímpiadas que nunca está muito em voga, como os eventos ligados à deficiência nunca o estão.
Falo, obviamente, dos Jogos Paralímpicos… pois… lembram-se deles? Nós, portugueses somos medalhados em todos os metais que tanto admiramos e que tão sequiosamente ambicionamos ter! Em Atenas 2004, obtivemos 5 medalhas de Ouro, 6 medalhas de Prata e 5 de Bronze. Ora se isto não é motivo de orgulho, se não são medalhas suficientes para nos vangloriarmos das nossas capacidades, então eu devo estar muito enganada.
Mais do que ganhar medalhas, estes atletas ganharam algo que, por muito que se pense o inverso, não tem preço, não vem espelhado em diferentes metais, noticiado ou comentado, chama-se Respeito, esse velhinho amigo dos que a ele se prestam e o praticam, não como modalidade mas como modo de vida.
Desses atletas não reza a história, dos seus (poucos) apoios, dos seus longos anos de treino, do seu esforço quase supra-humano, do seu silêncio ao silêncio sobre o seu trabalho. Claro que se fala dos paralímpicos, dá-se lhes o tempo de antena comum que se dá a qualquer associação ou evento desportivo. Fala-se porque se realizaram e até ganham sempre umas medalhas. Depois, esquece-se de novo e volta o silêncio.
Isto, para mim, é que merece reflexão, debates e longos comentários. No rescaldo de umas Olímpiadas que ainda nem terminaram o sabor do esquecimento é já amargo, muito amargo.
Vanessa Limpo
in, "Expresso Sem Mais", edição de 23 de Agosto de 2008
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
As long as...
A GENTE VAI CONTINUAR
Tira a mão do queixo,
não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou, ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas para dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem à batota
Chega aonde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota
Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar
Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém, não
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
E a liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo
Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar
Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar
Jorge Palma (1982)
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Candy clouds of lullaby...
(...)" in my fields of paper flowers and candy clouds of lullaby I lie inside myself for hours and watch my purple sky fly over me".
Evanescence.
sábado, 16 de agosto de 2008
The next chapter...
"Na minha próxima vida quero vivê-la de trás para a frente. Começar morto para despachar logo esse assunto. Depois acordar num lar de idosos e sentir-me melhor a cada dia que passa. Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a pensão e começar a trabalhar, receber logo um relógio de ouro no primeiro dia. Trabalhar 40 anos até ser novo o suficiente para gozar a reforma. Divertir-me, embebedar-me e ser de uma forma geral promíscuo, e depois estar pronto para o liceu. Em seguida a primária, fica-se criança e brinca-se. Não temos responsabilidades e ficamos um bebé até nascermos. Por fim, passamos 9 meses a flutuar num spa de luxo com aquecimento central, serviço de quartos à descrição e um quarto maior de dia para dia e depois, Voilá! Acaba como um orgasmo!"
A minha próxima vida, Woody Allen
(texto enviado pela minha querida Xanica por mail)
A minha próxima vida, Woody Allen
(texto enviado pela minha querida Xanica por mail)
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