sábado, 10 de janeiro de 2009

Silhuetas

Hoje estava a (tentar) sair do metro, ali para os lados da Alameda, quando no ritualístico afã de desmobilização do transporte, uma passageira apercebendo-se que o seu conjûge não me viu e que a sua mala iria colidir comigo, alerta-o para tal facto enunciando a seguinte frase:”olha, tem cuidado com a pessoa”.
Não foi um “cuidado com a senhora” (que até agradeço visto que apesar da carga respeitosa que pesa sobre o termo, nunca me faz sentir confortável, remetendo-me para alguém cuja a idade se sobrepõe em algumas décadas à minha) ou até um tout court “cuidado com a mulher” (que, neste caso, traduz uma forma “despachada, rápida e global de identificação) ou até o doce e pueril “cuidado com a menina”que aquando da minha tenra adolescência era encarado como forma de infantilização, agora é sempre bem-vindo.
Tornei-me (tornamo-nos) tão simplesmente “pessoas”. Porquê a admiração? Não se trata de um registo de língua descuidado ou infame, não é ofensivo e, no entanto, fez-me sentir (ainda mais) pequena. “Pessoa”, usado naquele contexto, enunciado daquela forma distanciou-me, eclipou-se enquanto presença física naquele espaço.
Desapareci, desaparecemos (?) à frente dos Outros em tempo real, in loco (update dos comportamentos do “ciber-espaço “em que apagamos, bloqueamos, eliminamos “contactos” quando a sua presença nos fere ou não nos apraz) e, muitas das vezes, creio até que para os outros nem lá estamos.
Entregues ao vórtice do tempo, da rotina, presos aos tentáculos que criamos, vamos eliminando até expressões, palavras que nos aproximam dos Outros, nos despertem do torpor da lista do supermercado, da roupa a secar na corda ou do lanche das crianças. Palavras que nos humanizam. Marcha rápida desenhada nas linhas do quotidiano, esboço que vamos fazendo até que sejamos apenas silhueta (?).


Vanessa Limpo

in "Expresso SemMais", edição de 10 de Janeiro de 2009

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Não, não sou a única, não sou a única a olhar o céu

E é, concerteza verdade. Hoje estamos todos de cabeça não na mas para a Lua, visto que as leis de Anthímio de Azevedo, ou Gandalf da metereologia, prevêem a queda de neve para esta noite.
E pois que estamos todos de mãos dadas à espera de floquinho do bom, aquele neve-farinha (mas Maizena que Cérelac é enjoativa) que nos faz estar mais colados à janela que um miúdo em véspera de Natal.
Se nevar hoje, as Boas Festas, para mim seriam agora. Caso até para me fazer acreditar que o Pai Natal existe.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

O poder da aderência

Cada dia confirmo mais a ideia que ligar o televisor é uma aventura (já dizia a Micaela há cerca de 10 anos, mais coisa menos coisa, troca o passo, que o melhor era desligar-se o televisor, que mais bonito era fazer-se o amor, ninguém lhe ligou e agora isto está pela hora da morte, é o que é).
Esta aventura passa pela nossa capacidade de resistência aos sucessivos exercícios de atentado à língua portuguesa. Isto não são já pontapés na gramática, não. Resvalou já há muito para kickboxing e do bom, ou tiros à queima-roupa ao nosso querido português.
E mais uma vez a Sic leva uma menção honrosa neste departamento pois consegue como mais ninguém (mas também dado que não vejo a TVI por motivos que vão dp puro bom-gosto até à má recepção do canal, não posso falar por todos os canais) seleccionar os maiores homicidas da língua de Camões (que se ouvisse o que eu hoje ouvi não estaria a dar voltas mas a fazer skydiving no túmulo).
Ora hoje estava-se em plena reportagem numa farmácia da capital a questionar a farmacêutica de serviço sobre a natureza dos medicamentos com maior saída (uma espécie de discos pedidos na rádio mas aqui em versão Ilvico) ao que a sra dra farmacêutica licenciada responde algo deste género: "Bom, os medicamentos com maior aderência são os que estão ligados à gripe e constipações".
Das duas uma: ou a dita sra qual Peter Parker foi mordida ainda menina e moça por uma aranha radioactiva ou fez o curso na Independente ou então não sabe falar e mais valia era estar em casa, "sossogadita", ou a pôr a roupa a secar que hoje até está para o fresco e seca-se que é uma maravilha.
E já agora, só por prevenção, antes de ir à janela ver dos boxers e das termotebes (o meu pai tem uma) tome um"Antigrippine", é que segundo consta tem uma óptima aderência.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

"Nós por cá"

Jornal da Sic hoje, o ministro Teixeira dos Santos fala sobre a actual recessão económica: "Cada vez mais somos confrotados com um clima de recessão mundial e europeia".

Que giro, não fazia a menor ideia que o Mundo e a Europa são duas entidades totalmente desligadas uma da outra. Como diria o "Tio Herlander" nos seus bons tempos: "ha ha ha...não sabia".

The gods must be crazy

No mesmo dia oiço duas coisas no mínimo inquietantes que me fazem pensar: Mas afinal andam todos doidos? ensandecidos? varridos de tanta loucura...está tudo malade de la tête, só pode...
Não só fico a saber que há "Hi5s" de animais de estimação, com direito a comments, fotos, fives, etc (os felinos pelos vistos estão na top list) como ainda ouvi nas notícias dar-se destaque à morte do gato do ainda Presidente Bush...como diria o outro, que habitava algures num castelo da Dinamarca, "something's very rotten"...
Citando esse grande "filósfo" dos tempos modernos..."e o burro sou eu?".

P.s. Happy 2009 e tal e coiso.

domingo, 21 de dezembro de 2008

All I want for Xmas is...everything

Estava outro dia numa aula junto das minhas crianças (não sendo minhas na verdadeira acepção do termo, sob minha “égide” estão durante 45 minutos dos seus dias).
Sendo o Natal o coração das suas expectativas nesta época, a lista de presentes estava na ordem do dia (e, da noite, madrugada, e afins pois se testes se fizessem aos seus cérebros, creio que os presentes ocupariam pelo menos 90% da sua memória total). À pergunta “qual é a prenda que mais queres este Natal?”, a resposta veio, sem já grande surpresa (que isto quando não se é “marinheiro de primeira viagem” nestas lides não traz estupefacção) que queriam no mínimo três “grandes” presentes, sendo que o adjectivo está associado não ao tamanho mas ao preço das oferendas.
Entre Nintendos, que segundo apurei estão na ordem dos quase 200 euros, a Princesas (colecção inteira ou a alegria da criança de volta) passando pelas –ainda- tradicionais bicicletas, Barbies ou PSP (que com tantas novas “gerações” que por aí pululam já me perdi se são “2” ou “3” e os especialistas que me perdoem se já houver uma “4” que esta minha pobre mente can’t keep up).
Oferecer presentes ás nossas crianças constitui uma verdadeira aventura, que começa desde logo pelo obrigatório update lnguístico a que temos de nos sujeitar, desde saber PSP não é polícia de segurança pública) ou que Winx designa um conjunto de bonecas que são bruxas, e como é óbvio em quarto onde cabe uma bruxa cabem logo duas ou três.
Após esta fase, vem a dor de cabeça da triagem que acompanhada pelo doce riso da criança que geralmente traz a caderneta da escola com as boas notas, deixa de ser triagem para passar a ser tudo o que foi pedido e como “a miúda até se porta bem” e o subsídio já veio, pronto, lá se faz o gosto ao cartão.
Tudo isto numa óptica de suposta magia, envolta em ambiente embrulhado a filhós, sonhos e rabanadas, regado com umas horas em família e claro, muitos presentes. Mas, caramba, o Natal é quando um Homem quiser e em Dezembro é, basicamente, todos os dias. Uma vez por ano, até ao Natal…seguinte.

Vanessa Limpo

in "Expresso SemMais", edição de 20 de Dezembro de 2008



domingo, 7 de dezembro de 2008

Pelos cabelos

Já aqui referi algumas das minhas eternas dúvidas existenciais, problemáticas que me assolam de forma continuada e que creio poderem também perturbar a si caríssimo/a leitor/a.
Ora, hoje lanço aqui outra dúvida que há muito me acompanha, algo que ao fim de três décadas de existência ainda não consegui resolver.
Se aqui há uns meses falei da “pandemia” de designar “Pérola” a tantas pastelarias espalhadas por este nosso Portugal, desta feita pergunto-me por que é que grande parte dos nossos cabeleireiros têm o nome “Cristina” ou, na sua forma petit-nom, “Tina” ou “Tinita”. Sei que o leitor poderá desde já dizer que o nome do estabelecimento designa o nome da sua proprietária e assim penso igualmente, ou, pelo menos, seria o raciocínio mais lógico.
Ora, mas se “Cristina” designa o nome da proprietária, então sou forçada a pensar várias possibilidades, a saber:
a A maioria das cabeleireiras portuguesas chama-se? Cristina
b) A maioria das cabeleireiras portuguesas tem como nome predilecto Cristina, daí baptizar o seu estabelecimento com esse nome.
c) Não se me apresenta qualquer outra hipótese plausível, mas, como nunca vi uma enunciação de hipóteses terminar na aliena b, decidi colocar uma terceira.
Se pensar que estou a hiperbolizar, ou que esta problemática não tem qualquer sentido, esteja atento a um qualquer “day Spa”, “Espaço” ou “Hairstylist” (sim, que agora dizer “cabeleireiro” já não está actualizado e daí pulularem desenfreadamente epítetos destes). Mas a minha aflição não finda aqui. Quando não se chama “Cristina”, o dito estabelecimento terá fortes probabilidades de possuir um destes nomes: “Faty”, “Fatinha”, “Mary”, “Sony” e demais nomes baseados ou em diminutivos carinhosos (o que até terá a sua lógica, visto que não convém tratar mal quem estará durante 1 a 2 horas a tratar-nos do cabelo) ou numa versão anglo-saxónica utilizando o mesmo diminutivo mas com a terminação em “y” (não sei se será porque se crê dar mais estatuto ou se não deixaram mesmo pôr o nome que tanto se pretendia: “Cristina”).
Que se pretenda um nome familiar para um estabelecimento que se quer amistoso, acolhedor e apelativo compreendo, que se goste particularmente de nomes pequenos ou diminutivos também entendo, ultrapassa-me, contudo, é a escolha que pende sempre para os mesmos nomes (salvem-se algumas excepções) num país com tantos cabeleireiros.
Ou as Cristinas nasceram com dotes para tratamentos capilares (o que ainda poderá ser objecto de um qualquer estudo genético que aprofunde esta hipótese), ou então a onomástica capilar precisa ser urgentemente revista.

Vanessa Limpo

In, "Expresso Sem Mais", edição de 06 de Dezembro de 2008



sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Contingências de amor...

Um destes dias na "carreira" para a lavoura oiço esta conversa entre dois jovens:

A: "Ela já não anda com ele".

B: "Então de que estás à espera?".

C: "Ela é 91...".


E como diria o outro, assim vão as glórias do mundo.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Homem visível...

“I am an invisible man (...) I am invisible simply because people refuse to see me (...) you wonder if you aren’t (...) a phantom in other people’s minds.”
Invisible man, Ralph Ellison, Penguin Books, Prologue, 1947, USA, p. 7.


Este trecho do assombroso livro do escritor norte-americano fala-nos da condição de invisibilidade de um homem negro na América dos anos 40-50 do século passado. Essa invisibilidade nada mais é do que metáfora para a segregação racial de que então se era vítima de forma explícita, de forma continuada e até estimulada.
Não pretendendo dissertar sobre a história norte-americana, até porque mais do que nunca, está na ordem do dia e é mais que discutida, falada e debatida, é, todavia, impossível não falar de Barack Obama.
Muita tinta correu (e corre ainda) sobre a vitória deste descendente de queniano, nascido no Havai. Não há forma de o contornar, ele é o assunto do dia, da hora e talvez desta primeira década de um século ainda criança, e criança que é, portador de uma nova esperança.
Barack será mais do que o vencedor das eleições presidenciais norte-americanas. Será lembrado como presidente do país, mas ele é como, já foi dito, o presidente do mundo.
O que nos aproxima então deste ex-advogado de Chicago? Não sendo seus compatriotas, não estando incluídos na sua cultura ou origem social, muitos de nós nem partilhamos da sua visão política, no entanto, o mundo votou em Obama. Votou no Homem, no carisma e na… MUDANÇA.
Ninguém duvida das suas capacidades retóricas, muitos seguem atentamente o seu programa político, contudo o que nos traz perto deste homem não é o que nos é diferente, mas o que dele nos aproxima. Ele é a metáfora da modernidade, símbolo da evolução, baluarte da derrocada do preconceito racial.
Não sendo ingénua, pensando que Obama representa o fim da queda da discriminação étnica que nunca fez sentido, ele devolveu-nos o brilho da visibilidade desejada por Ellison, recuperando-a e colocando-a não como inevitável alternativa, mas antes natural evidência de uma sociedade (mais) evoluída.
Claro? Claríssimo. Preto no branco.

Vanessa Limpo.


in "Expresso Sem Mais", edição de dia 15 de Novembro de 2008.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Definition of love...

>o amor
é uma luz que dá na cor
É uma cor que dá na vida
o amor
e uma luz que dá cor (...)
Se devagar se vai ao longe
devagar te quero perto
mesmo que o que arde nunca cure
vou beijar-te a sol aberto
é já dos livros que o instante
se parece tanto com a eternidade
e que o amor, na verdade
só se cansa de ti
se de ti mesmo te cansas (...)
o amor defne os seus lugares
ilhas desertas até ver
ver o sol, a chuva
o arco do corpo
arco-íris, corpo a corpo
cara a cara, cor a cor
incandescendo o olhar (...)
E ao pôr o dedo nas feridas
que supúnhamos curadas
provas de fogo atravessamos
no mar alto festejadas
não se controla o inesperado
nem se diz o indizível do amor
uma cor que fugiu de um pano leve
e pairou serena e breve
no ar
É uma cor que dá na vida".
Sérgio Godinho.

sábado, 1 de novembro de 2008

Dádivas e partilha

Se há coisa que ninguém discorda (ou quase ninguém, há que ter sempre alguma latitude) é que o povo português é, por natureza, generoso.
Tive, por diversas vezes, a alegre experiência de me ser oferecido, com a maior das bondades e boa vontade, desde itens alimentícios a estadias em casas alheias de pessoas que, por motivos profissionais, tive a felicidade de conhecer e partilhar momentos deliciosos.
Apesar da crise (que, se não me engano, dura pelo menos há trinta anos, dado que desde que tenho consciência do que me rodeia que oiço falar em “apertar o cinto” e em “crise”) temos sempre espaço em nós para momentos de oferta. Quando não é a crise económica é a de valores, quando não é esta (que ainda não está curada, permanecendo desconhecidas as vacinas para este vírus que ataca em surtos regulares e cujos efeitos secundários se vivem quotidianamente), é a crise climática, ambiental, etc.
Todavia, mesmo em tempos de crise somos gente que gosta de dar algo do pouco que tem. Gostamos tanto de dar que, por vezes, até nos esquecemos que quando ofertamos algo, esse presente é para alguém que não nós.
Enlevados que estamos pela alegria de ver a expressão surpresa do feliz contemplado com o nosso par de peúgas com raquetes entrecruzadas ou até da caixa de chocolates com ginja que o nosso presenteado até nem irá gostar porque já nos disse que não “aprecia” o dito fruto, fazemos tábua rasa dos seus gostos pessoais.
Se gastámos dinheiro só “tem é de estar agradecido” por nos termos lembrado dele (até pode ser Natal, época em que somos social e familiarmente impelidos a dar presentes até ao primo da 5.ª geração que vimos uma vez no casamento de uma tia em 1995).
Generosidade escamoteada? Não será autêntica? Quem disse que o somos sempre? Longe de me mostrar ingrata, até porque a gratidão é cada vez mais qualidade em vias de extinção (a par com o lince ibérico), apenas venho aqui fazer notar que dar é, quando verdadeiro, tão bom quanto receber. O truque, a meu ver, é dar como quem recebe, centrando a oferenda no Outro e não em nós.
O rosto de quem recebe é tanto mais luminoso quanto maior for o reconhecimento de si naquilo que lhe é dado. Nesse momento a oferenda torna-se não dádiva mas… partilha.

Vanessa Limpo

in "Expresso Sem Mais", edição de 01 de Novembro de 2008