Hoje estava a (tentar) sair do metro, ali para os lados da Alameda, quando no ritualístico afã de desmobilização do transporte, uma passageira apercebendo-se que o seu conjûge não me viu e que a sua mala iria colidir comigo, alerta-o para tal facto enunciando a seguinte frase:”olha, tem cuidado com a pessoa”.
Não foi um “cuidado com a senhora” (que até agradeço visto que apesar da carga respeitosa que pesa sobre o termo, nunca me faz sentir confortável, remetendo-me para alguém cuja a idade se sobrepõe em algumas décadas à minha) ou até um tout court “cuidado com a mulher” (que, neste caso, traduz uma forma “despachada, rápida e global de identificação) ou até o doce e pueril “cuidado com a menina”que aquando da minha tenra adolescência era encarado como forma de infantilização, agora é sempre bem-vindo.
Tornei-me (tornamo-nos) tão simplesmente “pessoas”. Porquê a admiração? Não se trata de um registo de língua descuidado ou infame, não é ofensivo e, no entanto, fez-me sentir (ainda mais) pequena. “Pessoa”, usado naquele contexto, enunciado daquela forma distanciou-me, eclipou-se enquanto presença física naquele espaço.
Desapareci, desaparecemos (?) à frente dos Outros em tempo real, in loco (update dos comportamentos do “ciber-espaço “em que apagamos, bloqueamos, eliminamos “contactos” quando a sua presença nos fere ou não nos apraz) e, muitas das vezes, creio até que para os outros nem lá estamos.
Entregues ao vórtice do tempo, da rotina, presos aos tentáculos que criamos, vamos eliminando até expressões, palavras que nos aproximam dos Outros, nos despertem do torpor da lista do supermercado, da roupa a secar na corda ou do lanche das crianças. Palavras que nos humanizam. Marcha rápida desenhada nas linhas do quotidiano, esboço que vamos fazendo até que sejamos apenas silhueta (?).
Vanessa Limpo
in "Expresso SemMais", edição de 10 de Janeiro de 2009
sábado, 1 de novembro de 2008
Dádivas e partilha
Se há coisa que ninguém discorda (ou quase ninguém, há que ter sempre alguma latitude) é que o povo português é, por natureza, generoso.
Tive, por diversas vezes, a alegre experiência de me ser oferecido, com a maior das bondades e boa vontade, desde itens alimentícios a estadias em casas alheias de pessoas que, por motivos profissionais, tive a felicidade de conhecer e partilhar momentos deliciosos.
Apesar da crise (que, se não me engano, dura pelo menos há trinta anos, dado que desde que tenho consciência do que me rodeia que oiço falar em “apertar o cinto” e em “crise”) temos sempre espaço em nós para momentos de oferta. Quando não é a crise económica é a de valores, quando não é esta (que ainda não está curada, permanecendo desconhecidas as vacinas para este vírus que ataca em surtos regulares e cujos efeitos secundários se vivem quotidianamente), é a crise climática, ambiental, etc.
Todavia, mesmo em tempos de crise somos gente que gosta de dar algo do pouco que tem. Gostamos tanto de dar que, por vezes, até nos esquecemos que quando ofertamos algo, esse presente é para alguém que não nós.
Enlevados que estamos pela alegria de ver a expressão surpresa do feliz contemplado com o nosso par de peúgas com raquetes entrecruzadas ou até da caixa de chocolates com ginja que o nosso presenteado até nem irá gostar porque já nos disse que não “aprecia” o dito fruto, fazemos tábua rasa dos seus gostos pessoais.
Se gastámos dinheiro só “tem é de estar agradecido” por nos termos lembrado dele (até pode ser Natal, época em que somos social e familiarmente impelidos a dar presentes até ao primo da 5.ª geração que vimos uma vez no casamento de uma tia em 1995).
Generosidade escamoteada? Não será autêntica? Quem disse que o somos sempre? Longe de me mostrar ingrata, até porque a gratidão é cada vez mais qualidade em vias de extinção (a par com o lince ibérico), apenas venho aqui fazer notar que dar é, quando verdadeiro, tão bom quanto receber. O truque, a meu ver, é dar como quem recebe, centrando a oferenda no Outro e não em nós.
O rosto de quem recebe é tanto mais luminoso quanto maior for o reconhecimento de si naquilo que lhe é dado. Nesse momento a oferenda torna-se não dádiva mas… partilha.
Vanessa Limpo
Tive, por diversas vezes, a alegre experiência de me ser oferecido, com a maior das bondades e boa vontade, desde itens alimentícios a estadias em casas alheias de pessoas que, por motivos profissionais, tive a felicidade de conhecer e partilhar momentos deliciosos.
Apesar da crise (que, se não me engano, dura pelo menos há trinta anos, dado que desde que tenho consciência do que me rodeia que oiço falar em “apertar o cinto” e em “crise”) temos sempre espaço em nós para momentos de oferta. Quando não é a crise económica é a de valores, quando não é esta (que ainda não está curada, permanecendo desconhecidas as vacinas para este vírus que ataca em surtos regulares e cujos efeitos secundários se vivem quotidianamente), é a crise climática, ambiental, etc.
Todavia, mesmo em tempos de crise somos gente que gosta de dar algo do pouco que tem. Gostamos tanto de dar que, por vezes, até nos esquecemos que quando ofertamos algo, esse presente é para alguém que não nós.
Enlevados que estamos pela alegria de ver a expressão surpresa do feliz contemplado com o nosso par de peúgas com raquetes entrecruzadas ou até da caixa de chocolates com ginja que o nosso presenteado até nem irá gostar porque já nos disse que não “aprecia” o dito fruto, fazemos tábua rasa dos seus gostos pessoais.
Se gastámos dinheiro só “tem é de estar agradecido” por nos termos lembrado dele (até pode ser Natal, época em que somos social e familiarmente impelidos a dar presentes até ao primo da 5.ª geração que vimos uma vez no casamento de uma tia em 1995).
Generosidade escamoteada? Não será autêntica? Quem disse que o somos sempre? Longe de me mostrar ingrata, até porque a gratidão é cada vez mais qualidade em vias de extinção (a par com o lince ibérico), apenas venho aqui fazer notar que dar é, quando verdadeiro, tão bom quanto receber. O truque, a meu ver, é dar como quem recebe, centrando a oferenda no Outro e não em nós.
O rosto de quem recebe é tanto mais luminoso quanto maior for o reconhecimento de si naquilo que lhe é dado. Nesse momento a oferenda torna-se não dádiva mas… partilha.
Vanessa Limpo
in "Expresso Sem Mais", edição de 01 de Novembro de 2008
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