domingo, 1 de fevereiro de 2009

Vozes

Li numa revista um artigo que me deixou num misto que vai do perplexa ao apaziguada.
Quando ouvimos falar em doenças do foro físico sentimos compaixão, solidariedade e um inevitável carinho pelos os que delas padecem. Quando nos deparamos com doenças que enlaçam tanto o aspecto físico como o mental e social, a velocidade com que o chamado efeito "murro no estômago" nos derruba torna-se maior, muito maior. A mim, pelo menos, traz-me essa sensação.
O autismo, tal como outras doenças cuja carne, vísceras e osso são a incapacidade de transportar para o mundo aquilo que (nos) viaja no pensamento, o medo de viver fora do conforto da nossa mente, e a impotência em não conseguir controlar a necessidade absoluta de viver de acordo com uma rotina repetitiva que tranca a cadeado o abismo da Mudança.
Dale nasceu com autismo, para mal de todos os pecados(?) a sua mãe, Nuala Gardner, uma enfermeira que trabalhava nos cuidados paliativos (a Natureza, por vezes, sabe mesmo o que faz) cedo se apercebeu que Dale não era uma criança dita comum.
(Des)esperando para que a doença do seu filho fosse meritoriamente reconhecida e diagnosticada- facto que só aconteceu ao fim da 4a primavera de vida do seu filho- Nuala percorreu a sua Escócia natal em busca de tratamentos, respostas que atenuassem o autismo profundo (como foi posteriormente diagnosticado) de seu filho.
Quando "Henry," um golden retriever surge na vida desta família, a reacção da mãe foi a de medo, medo que este novo elemento fosse um novo potenciador de stresse numa vida necessariamente ritualítica até então.
Henry não só se tornou o melhor amigo de Dale como a sua voz. Os dois começaram a "falar". A voz acompanhada pelo riso de Dale serpenteava pela casa pela primeira vez. Henry tranquilizava-o.
Era comum Dale ter diversos "ataques" (palavra utilizada pela mãe) e num deles em que o desespero de ver o jovem ferir-se repetidamente, fez com que o seu pai falasse como se fosse o cão.
Surreal ou não, resultou. E tudo o que nos devolve à lucidez é bem-vindo. A partir daí e por muito tempo, esta "técnica" foi utilizada pelos pais de Dale para comunicarem com ele. E foi através deste cão que começaram a "conhecer" o seu filho. Primeiro o animal foi o mediador, três anos depois Dale fala directamente com os pais. Hoje fala com o mundo.
Dale tem hoje 20 anos, estuda na faculdade para ser educador de infância, entende-se especialmente bem com crianças autistas ou com outras deficiências. É voluntário num grupo de teatro para crianças deficientes. O último capítulo do livro de Nuala "Um amigo chamado Henry" foi escrito por ele. A mãe, como todas as mães, espera que ele "arranje uma boa moça" até porque o seu círculo de amigos é já extenso.
E as críticas à insólita história que o livro narra? Como diz Nuala:"O que mais me agrada são as críticas de adultos autistas: se tenho o livro certo para eles, então sei que fiz um bom livro."
Porque as (nossas) palavras não se encerram somente na voz.
Porque a voz é muito mais que som.
Porque o que importa é que haja um eco atento que nos queira escutar.
Humano, ou não.

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